Exposição
10 ANOS DE VADIAGEM
Fotografias de vários autores

Sentados numa qualquer arrecadação ao lado de uma cozinha que de limpa tinha pouco, despíamo-nos mais uma vez do papel do cangalheiro e do gangster. Tentávamos não sujar a roupa por entre o ténue brilhar de uma lâmpada solitária e o caos de grades de garrafas, esfregonas, detergentes e baldes de limpeza. Fumávamos um cigarro e saíamos para arrumar as guitarras, amplificadores, contrabaixo, flores e as velas de igreja que nos separavam do público sentado no chão onde tocávamos. Depois era o quebra-cabeças de enfiar tudo no Peugeot 106 do Tó, um carro que nunca foi desenhado ou pensado para levar toda aquela tralha. Depois, e só depois, bebíamos uma cerveja e fumávamos outro cigarro. Falávamos com o dono do bar e fazíamos contas ao pouco dinheiro que nos restava do cachet. Enfiávamo-nos a muito custo no minúsculo carro e fazíamo-nos à estrada. A maioria das vezes andávamos os dois no pequeno Peugeot. Às vezes amigos juntavam-se a nós e levávamos a carrinha da minha irmã onde já cabiam mais dois e o material.

Outras noites tínhamos a sorte de o dono do bar nos pagar a estadia. Lembro-me de tocarmos no Porto, no pico do inverno e fazia um frio de rachar. Após o concerto e termos arranjado um lugar seguro para deixar o Peugeot carregado com os instrumentos, fomos para a pensão. Os números dos quartos estavam escritos a lápis na parede por cima da porta. O frio dentro dos quartos era tanto que dormi vestido com um gorro enfiado até às orelhas debaixo de todos os cobertores que consegui arranjar. Assim foram os primeiros anos de vida dos Dead Combo. A comer relva como diz o Tó. Tocávamos em qualquer lugar. Restaurantes, bares de clientela pouco recomendável, na rua. A única coisa que queríamos era mostrar às pessoas a música que fazíamos. Ainda hoje continua a ser assim.

Desde o início que sempre tivemos a sorte de ter amigos que nos ajudaram a criar todo o imaginário à volta da nossa música. Amigos que nos amparavam em tempos difíceis. Amigos que impediram que os Dead Combo acabassem. Amigos que fizeram com que nos encontrássemos. Foram muitas as pessoas que tanto nos deram ao longo destes dez anos. Sem a generosidade de todos eles não estaríamos agora a fazer esta exposição. Provavelmente nem sequer existiríamos. Alguns deles estão nas fotografias, outros estavam atrás da câmara. Outros estão no espaço que separa uma fotografia da outra.

Pedro Gonçalves

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