Discurso direto
Uma parte importante do que sou e faço é resultado da leitura.
Sandro William Junqueira

Uma parte importante do que sou e faço é resultado da leitura. Do que os livros me dão. Há um momento marcante na minha infância onde tudo começa. E que talvez traduza o que a leitura me provoca. Foi no dia em que apanhei varicela. Tinha onze anos e muita comichão. Altos na cabeça. Manchas vermelhas espalhadas pela pele que não podia coçar. Fiquei sozinho, em casa, grande parte da quarentena – duas semanas. Os meus pais trabalhavam. Assim, para esquecer a doença, a falta dos amigos da escola, deitei-me na cama e li. Lembro-me. Li sete volumes da coleção “Os cinco” e “A ilha misteriosa” de Júlio Verne. Enquanto provava as páginas com os dedos, enquanto os meus olhos corriam as frases e a minha imaginação se acendia, não me senti triste, nem sozinho, nem comichão sequer. A comichão só me assaltava quando ouvia o tilintar das chaves na porta e os meus pais entravam em casa para o almoço ou ao final do dia. Pois era nesse instante que interrompia a leitura para pousar o livro na mesa-de-cabeceira. Hoje, quando olho para trás, o ter tido varicela foi um momento de pura felicidade. Descobri o prazer de ler e a força misteriosa dos livros. Durante aquelas duas semanas, viajei por lugares onde nunca tinha estado. Sem pagar bilhete. Sem sair do mesmo sítio. Sem coçar as manchas vermelhas espalhadas pela pele. 

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