Discurso direto
Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo
Maria Manuel Viana

Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo, demasiado cedo para gestos bruscos, urgentes, como levantar, tomar duche, comer o pão, beber o café. Nesses momentos, em que já não é o sono que se prolonga mas o prazer quase animal de poder ali estar, recordo as páginas lidas horas antes, noite dentro, e a certeza de que o livro continua à minha espera enche-me duma alegria a que não sei dar nome, porque vem da infância mas não é exactamente infantil, porque é uma alegria feita de emoções, de medos, de surpresas, de encantamento, de incredulidade, de todas as coisas que fazem com que um texto me dê prazer, isto é: me comova ou me magoe.
Ou então, acordo e penso que o livro acabou ontem, tendo eu prolongado as horas de leitura nocturna para o poder terminar, como se não soubesse já que os livros amados devem ler-se muito devagarinho, adiando o inadiável fim, distendendo o prazer de cada página, cada frase, cada palavra. Sei, no entanto, que a esse livro se seguirá imediatamente outro, um que me espera na pilha que fui fazendo, ao sabor de coisas tão diferentes como uma crítica lida, a paixão por aquele escritor, a vontade de descobrir um que ainda não conheço ou tão-só o desejo súbito, numa livraria, de levar para casa um livro novo.
Ou ainda, acordo e penso que me apetece comprar um livro, dois, três, muitos, e que esse é um dia bom, porque é então que o desejo se torna realidade, e que passearei pelos corredores das livrarias, abrindo uns, folheando outros, sabendo que, muitas vezes, não sou eu quem escolhe o livro mas sim o livro que me escolhe a mim.

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4 Comentários
  • E ainda dizem que os livros vão acabar, o futuro será (já é no presente) a leitura através de plataformas digitais, sim, mas os livros para mim não vão acabar. Ter a história toda na mão, acaricia-la, cheira-la, não é a mesma coisa que ter uma máquina fria, que se desliga e a história morre, dilui-se, desaparece. Um livro é algo pessoal, com um significado muito íntimo que se arreiga a quem o ama pelo seu conteúdo, obviamente, mas também pelo seu “volume” valioso que faz o nosso imaginário voar aos até aos céus ou descer aos infernos.
    “Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo”…pois, os livros são eternos!

  • É mesmo isso. É tudo tão verdade! Uma descrição perfeita do que sente quem é capaz de se apaixonar pelos livros.

  • Prezada Amiga Maria,
    Estas tuas palavras exigiram-me emprestar-te um livro, ainda no original e secreto, mas para isso é preciso que me digas um aceite. Chama-se “A vida é Eterna”. Fala sobe o Tempo, o mago secreto que poucos abraçam ao longo de suas vidas. Está em português brasileiro, não muito fácil de se ler.

    Ora as palavras se não são como o primeiro bolo que despenca por uma cordilheira, e depois arriscam-se por um precipício para colorir de branco um montanha feita de nuvem. Antes apreciam o risco do que a vida monótona de um jazigo encravado por qualquer parte.

    Muito prazer em te ler e poder ser lido.

    robertoescritor@gmail.com

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