Novos Talentos FNAC Fotografia 2011
Arrefeceu a cor dos teus cabelos
Lara Jacinto

Arrefeceu a cor dos teus cabelos reflecte a passagem do tempo na forma como vemos os outros e cada um se vê a si próprio. Duas pessoas procuram vestígios do que foram, ao mesmo tempo que tomam consciência de que tudo se altera à passagem do tempo; conseguem, no entanto, apaziguar o confronto dessas memórias com a realidade que agora encontram. Um olhar inicial parece evidenciar que tudo mudou, rejeitar a correspondência entre o passado e presente, servindo de ponto de partida a uma viagem à estranheza e distância, mas também à aceitação da mudança como nova constante.

Lara Jacinto

               

   

Passaram os dias

Por Sérgio B. Gomes, membro do júri Novo Talento FNAC Fotografia 2011

A imagem que abre o portefólio de Lara Jacinto é um desses bons exemplos de síntese visual onde apetece repousar o olhar. Coexistem nela a tensão e o simbolismo de um momento paradoxal que, ao mesmo tempo, separa e junta duas pessoas. Conjugam-se a mecânica do quotidiano da persiana e a vidraça (que as separa) com a troca de olhares e o manto de luz (que as une). No meio de tudo, o reflexo da silhueta de um encontra o outro, mas em vez de ofuscar e de distorcer, revela.

A motivação da série que venceu o Prémio Novo Talento FNAC Fotografia 2011 está relacionada com a representação da vulnerabilidade a que estamos sujeitos à medida que o  tempo se vai atravessando nas relações, nos lugares, nos sentimentos, na pele, no cabelo... E também com o sentimento de perda provocado pela impossibilidade de repetir o que se passou, pela dificuldade de encontrar em si e no outro sinais do que já foram.

É uma silhueta enigmática esta que se esconde para revelar. É nela que se pode encontrar também o programa fundamental de toda a série que se resume num verso que Miguel Torga parece ter escrito de propósito para aqui. Como um dardo que se afunda na mouche, o título Arrefeceu a cor dos teus cabelos, verso do poema Vénus Envelhecida (Miramar, 16 de Agosto de 1963), sintetiza na perfeição a ideia de desencanto que percorre todas as imagens. No perfil negro da imagem inaugural, a auréola de luz afogueada, a chama que mantém uma réstia de fulgor, parece mais condenada a esmorecer do que a atear o que quer que seja. Uma figura que pede a revelação do segundo verso do poema que sentencia: O tempo tudo apaga e desfigura...

A imagem de arranque é perturbadora e eficaz na mensagem. Sintetiza bem, como lhe compete. Mas é no ensaio que o talento de Lara Jacinto melhor se revela, mostrando coerência nas escolhas e capacidade de captar um estado de espírito (no caso um mal de vivre), nem sempre fácil de conseguir transmitir de forma eficaz através de um número alargado de imagens. O desafio a que se propôs era arriscado. O ideário que o baliza assenta sobretudo em premissas de extrema subjectividade e aposta na latência psicológica das imagens, deixando de lado aquilo que as coloca mais perto da evidência documental. É um trabalho labiríntico que serpenteia por entre imagens de expressão melancólica e confessional pelo tempo que passou e imagens que deixam no ar sentimentos contraditórios, como no abraço iluminado, onde tanto se pode vislumbrar a certeza do fim como a tímida vontade de recomeçar.

O jogo de espelhos, já o sabemos, é uma das metáforas preferidas da imagem fotográfica. O confronto entre o que somos e o que vemos (entre o  que somos e o que outros vêem em nós) continua a fascinar e encontra na fotografia um dos seus terrenos mais férteis pela sua capacidade de potenciar imagens dentro da imagem.

Arrefeceu a cor dos teus cabelos é herdeiro desse exercício de descoberta, de (re)conhecimento introspectivo e de duplicação visual que vai muito além da causalidade de um efeito mecânico, procurando sobretudo a problematização de sentimentos (e sentidos) rumo àquilo a que podemos chamar de ensaio sobre a percepção de si. Vemos ao longo da série como os protagonistas se colocam em causa, como se enfrentam e tomam consciência do que são individualmente, na tentativa de contribuir para o juízo colectivo que necessariamente procuram e cujo desfecho se revela enigmático, incerto. São as imagens a criar uma tensão subliminar que cativa, que nos mantém despertos e interessados a entrar neste retrato da decepção, neste encontro com a certeza da força do tempo.

A diversidade de abordagens que se estende ao longo do trabalho revela-se um dos seus principais argumentos narrativos. A conjugação acertada de imagens que carregam um lado performativo, teatral, com outras de representação mais incisiva e directa têm a virtude de nos transportar de forma eficaz para a experiência da vida quotidiana, que está, aliás, no centro de todo o ensaio.

Vem de longe a ligação entre fotografia e performance ligada ao quotidiano. Nos anos 70 conheceu um impulso significativo com trabalhos que colocaram o foco criativo na cumplicidade entre a imagem teatralizada e os micro-acontecimentos da quotidianidade (Sophie Calle, Duane Michals…) rumo à noção de que a vida contemporânea não está apenas determinada pela realidade (real), encerrando também experiências mais próximas da ficção, do imaginário e do virtual. Foi uma abordagem que implicou a redefinição dos critérios que definiam o documento fotográfico e que aproximou a prática artística da realidade social.

Nessa procura do momento em que Arrefeceu a cor dos teus cabelos, onde o suporte fotográfico é sobretudo usado como um espaço cénico, competem ainda os objectos, os recantos e as superfícies marcadas pelo passar dos dias, dos anos. Não entram aqui como adereços menores, mas como poderosos reflexos do desmaio a que tudo está sujeito. Através deles, Lara Jacinto estende uma teia de referências determinante para concretizar um corpo de trabalho coeso e uma proposta criativa implicada no seu conjunto.

No sofá estafado, nas flores e nas plantas em definhamento mora a imagem da vulnerabilidade que é também a deles. Do confronto com a imagem de si e do outro, nasce a percepção da inevitabilidade da mudança e da transformação. Um momento fundador no qual a fotografia participa como testemunha inquisidora, um momento onde se pode aplicar o seu duplo poder que acelera e trava – o fim.

 

Vénus envelhecida

Arrefeceu a côr dos teus cabelos

O tempo tudo apaga e desfigura...

Que palha triga, sensual, madura

O loiro resplendor que rememoro!

Chove ou sou eu que choro

Desiludido?

Como era quente o ouro da seara!

Ah, deusa sem tiara

Mito desvanecido!

 

Miguel Torga

Miramar, 16 de Agosto de 1963