Novos Talentos FNAC Fotografia 2013
Brejo
Tânia Cadima

Brejo é um ensaio de natureza pessoal, autobiográfico, que pretende explorar um lugar que me é familiar mas do qual guardei sempre uma certa distância. As visitas são geralmente escassas e curtas. Desta vez regresso ao Brejo com tempo e é com pronta melancolia que testemunho e documento a minha própria ausência.

Brejo aparece como lugar duplo. Um lugar geográfico, caracterizado pela proximidade de água, fontes e ribeiros, terrenos circundantes pantanosos, pela presença abundante de vegetação, mato, sombras frias e húmidas e pela constante passagem do vento. Um lugar psicológico, aquele para onde se vai quando se cai em esquecimento, quando se é elevado ao abandono, onde se cumpre uma pena.

Tânia Cadima

Tânia Cadima

Nasceu em Coimbra a 14 de Fevereiro de 1979 mas foi na Marinha Grande que cresceu. Em 2002 conclui a Licenciatura em Design de Comunicação na Universidade de Aveiro. Atualmente vive e trabalha em Lisboa. Frequentou, em 2013, no Atelier de Lisboa, os módulos teórico e prático de Fotografia Contemporânea e Fotografia e Artes Plásticas.

Recebeu um 1º prémio na Maratona Fotográfica FNAC em 2010 e em 2012.

 

Argumentário do júri

Num contexto tão multifacetado como é o da prática da fotografia contemporânea, é importante assinalar os percursos que marcam uma ideia de reflexividade e de consciência das suas possibilidades. Que a fotografia, invenção técnica com quase duzentos anos, tenha adquirido uma importância tão central no contexto artístico revela menos das possibilidades plásticas do que do seu dispositivo basicamente documental, que prende a imagem à coisa e remete esta, inevitavelmente, para uma origem ‘no real’. E no entanto, é pela capacidade de lidar com este documentalismo congénito, que tanto interessou a arte do século XX, pela capacidade de o disciplinar, ou subordinar a uma ideia, ou a uma reinvenção desse real, que a fotografia se impõe como objecto provocante, interessante, problematizador, numa palavra, ‘artístico’.

O prémio Novo Talento FNAC Fotografia 2013 contempla um trabalho singular, intitulado simplesmente “Brejo”, de Tânia Cadima. Com esta série de fotografias a autora convoca as possibilidades mais arcaicas da fotografia, na sua vocação para a memória e para se constituir como mediação entre o sujeito e o mundo.

Regressando a Brejo, terra da sua família, Tânia Cadima constrói um conjunto de imagens que aludem, evocam ou tocam, tangencialmente, esse lugar. Contrariando o dispositivo preciso e realista da máquina, a autora constrói imagens em flou, carregando o grão ou dirigindo-se a sombras — e escolhendo o preto e branco. A escolha destes efeitos de estilo comunica às imagens um efeito onírico e marcadamente subjectivo, que remete para um tempo mais longínquo partilhado intersubjectivamente, com a sua família. Ao revisitar lugares que são seus por pertença colectiva, procura encontrar-se a si mesma como herdeira de uma memória, procura descobrir o seu lugar “ali”.

Uma imagem, onde a autora se retrata ao espelho de forma mais ou menos oblíqua, centra esta série nessa busca identitária. Os caminhos, os recantos, os pormenores que capta com a máquina representam assim momentos desse exercício de reconhecimento e de interrogação do seu significado; mas a forma como percorre de volta esses sinais e esses locais salienta o tecido, invisível mas consistente, assombrado mas real, com que as memórias se inscrevem no presente de cada um e, neste caso, como o "Brejo" se reflecte em si mesma, ou como este lugar reflecte uma parte de si. Numa linguagem marcadamente difusa e intencionalmente confusa, dominada pela suave textura que recobre todo esse deambular, Tânia Cadima devolve-nos a experiência de um reencontro. Mas não sem que o próprio dispositivo fotográfico seja aqui interrogado nas suas possibilidades de convocação de uma realidade que é mais mental que física, mais pessoal que objectiva, mas não menos passível de ser representada através de imagens.

Margarida Medeiros

Membro do júri do Novo Talento FNAC Fotografia 2013