Discurso direto
“Condições mínimas”
Por Margarida Vale de Gato

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas
semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha
e que só uso eu; a nós vontade
basta — e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,
aceitas? compreendes? aguentas?
no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.

 

Margarida Vale de Gato nasceu em Vendas Novas em 1973. É Investigadora Auxiliar no Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, onde lecciona tradução literária. Doutorada em Literatura e Cultura Norte-Americana, traduziu, de inglês e francês para português, textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Edgar Allan Poe, Herman Melville, Henry James, Sharon Olds, Tim Burton, George Sand, René Char, Henri Michaux e Nathalie Sarraute. É autora do livro e catálogo Poe em Portugal (2009), entre outros ensaios académicos. Publicou poemas e contos em revistas e antologias portuguesas e internacionais e, em 2010, o livro de poemas “Mulher ao Mar”.

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