Novos Talentos FNAC Fotografia 2006
CONTRA – FOGO
NELSON D’AIRES

As roupas, o tecido dos bancos do automóvel, o meu cabelo: tudo cheira ainda a fumo, tudo é fumo. Se há memória que sobreviva ao fogo é o cheiro denso e negro do fumo transformado em cinzas.

Testemunhei um funeral. Andei no meio de serras transformadas em carvão e desolação. Vi como uma casa inteira desaparece e passados dias o chão ainda arde. Ouvi as lágrimas de quem tudo perdeu. Acompanhei corporações de bombeiros exaustos que não viam a família há duas semanas, alguns há um mês. Quando foi necessário, pousei a câmara e ajudei. Recusei pensar que tudo aquilo não me pertencia, recusei ser espectador nos momentos mais críticos. Teria sido um erro enorme pensar que eu não fazia parte dos acontecimentos.

Na manhã de 15 de Agosto de 2005, ouvi na rádio que nesse dia se enterrava um bombeiro voluntário, morto no combate às chamas, e que um grande fogo lavrava no concelho de Pampilhosa da Serra. Uma hora depois estava no meu carro, carregado com umas poucas peças de roupa, um cobertor e o meu equipamento fotográfico. Guiado pelas notícias da rádio e pelas densas colunas negras de fumo, foram duas as semanas em que persegui as chamas. 

Sem acreditação de jornalista, fiquei muitas vezes preso nos bloqueios de estrada controlados pela Guarda Nacional Republicana. Deixei o carro e prossegui a pé, regressando para dormir no banco de trás em qualquer berma protegida pela sombra.

Fotografei de dia e de noite. Foi durante a noite que testemunhei a cores o descontrolo e o aumento das chamas, o medo das populações em alerta, os poucos recursos dos bombeiros, e os populares, que podiam apenas assegurar a segurança das casas e não das matas. 

A luz do amanhecer expunha a destruição ocultada pela noite. Foi a preto e branco que, sob a bruma dos fogos ainda a ardeiam, registei as cinzas e o cansaço de quem lutou sem baixar os braços, e daqueles que devolvem na luz do dia os mortos à terra.

nelson d’aires