Exposição
DE OLHOS BEM FECHADOS
Fotografias de Nelson Garrido

Primeiro olhei para as fotografias praticamente sem as ver. Foi intencional: limitei-me a deixá-las correr no computador, dois, três, quatro segundos entre cada uma. Incêndio, mergulho, prédio, casino, cigana, Amazónia, um carro num mar de soja. Depois fechei os olhos e foi assombro que vi. De novo: primeiro olhei para as fotografias praticamente sem as ver; depois foi com os olhos fechados que vi assombro. É este, também, o poder da imagem.

Não preciso de saber o que faziam naquela manhã de Outubro dois homens de perna alongada sobre um muro de Xangai. Basta-me ler a expressão de ambos para entender que se espantam com alguma coisa, com algo que vêem e que nós não vemos – e que não precisamos de ver para nos assombrarmos com o assombro deles.

Foi assim naquele instante, mais um instante para a frente ou para trás e a imagem teria sido outra. Vale-nos que o Nelson Garrido, com quem partilho instantes (e pessoas e histórias e contextos) há 15 anos no PÚBLICO, estava de olhos bem abertos naquela manhã de Outubro em Xangai. Ou naquele dia em que fixou o desespero (indignação?) de uma mulher cigana no Bairro São João de Deus. Ou naquela noite escura na Mauritânia, seguindo vidas clandestinas deserto adentro. Ou então, ainda e sobretudo, naquela tarde em que tornou as chamas quase belas. 

Este conjunto de imagens representa, de certa forma, uma retrospectiva do trabalho de 15 anos de Nelson Garrido no PÚBLICO. Há muito mundo nelas, vamos da Amazónia à Grécia num pulo – e o Qatar (e o futuro, parecem dizer-nos os três homens de costas) é já ali à frente –, mas há também o mundo mais pequenino de todos os dias, da demolição ao incêndio e à desoladora paisagem de prédios em esqueleto que povoa as nossas beiras de estrada.

Tivesse sido eu a seleccionar estes instantes do quotidiano e com certeza que lá estariam outros – que os nossos instantes favoritos nem sempre coincidem com os instantes decisivos dos fotojornalistas. Lembro-me, de olhos bem fechados, de uma fotografia que foi capa do jornal já há muitos anos – era de um incêndio, em Águeda, creio, e mais uma vez reflectia, num golpe de olhar, o lado perversamente belo do horrível. Essa imagem não consta desta selecção – o que se entende, e perdoa, porque seleccionar fotografias de 15 anos de trabalho deve ser quase como pedir a um pai para escolher um dos filhos.

Não chegamos a tanto: pedimos-lhe apenas que continue de olhos bem abertos, para que nós, se quisermos, possamos fechá-los bem e continuemos a ver o mundo. E a assombrarmo-nos com ele.

Sandra Silva Costa
Jornalista do PÚBLICO

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