Exposição
ESPELHO NOSSO
Fotografias de Tiago Mota Garcia

DATAS:

01/12/2016 - 01/03/2017 Norteshopping

Hora de ponta no centro do Porto, a paragem nos Aliados está cheia de gente à espera para regressar a casa, num trânsito que leva o autocarro que já se vê ao fundo da avenida a demorar uma eternidade para percorrer uns metros. Finalmente chega, enche-se de gente e arranca, leva com ele todos os que estavam na paragem menos um, um homem que se senta geometricamente no centro da paragem com um placard publicitário vazio sobreposto à sua cabeça. Por milagre os carros desapareceram e só ficou o homem de cabeça quadrada ali sentado, um homem sem rosto que espera sozinho pela sua oportunidade. 

Enquanto o sol se esconde atrás dos prédios um último raio de luz varre a rua num final de tarde de Outono, uma rapariga que passa olha para a objectiva com um atraente e enigmático olhar rasgado pelo frio num misto de admiração, timidez e sensualidade. Um homem com um ar intimidatório leva a mão ao bolso do casaco, se vai tirar um simples lenço, a reforma ou uma arma não sei… ao mesmo tempo uma mulher com ar de poucos amigos segue com o olhar uma outra mulher que veste da mesma cor, como se o passado já as tivesse cruzado.

Três pessoas olham com admiração e consternação para algo que se está a passar mais acima, a polícia acabou de passar mas cativante é o olhar curioso como que a quererem levitar para chegar onde os seus olhos apontam. 

Um cego caminha pelo passeio a apalpar terreno com a sua bengala, fixa-me o olhar como se estivesse a ver-me. Ao passar por mim exclama… “por aqui andamos até que a morte nos leve”.

No cruzamento da 53ª com a 8ª Avenida em Nova Iorque, um homem que espera pelo semáforo destaca-se dos que o rodeiam. Pensativo de mãos nos bolsos, ali fica a olhar para baixo sem grande pressa que o semáforo mude, contra a corrente da cidade.

Em Coney Island alguém na praia sozinho permanece durante quase 2 horas a olhar para o mar entre uma vedação degradada e a linha de mar, uma palmeira artificial ganha destaque com o tempo frio e a neve. Uma imagem distante da conotação que se faz da praia: calor, céu azul, férias, lazer, natureza. Ali esteve como que a chamar alguém que teima em não voltar. Uma imagem que será o oposto dentro de 6 meses com o calor e o azul do céu a atrair milhares de pessoas à praia, dizem que o tempo tudo cura tudo muda.

7 mil milhões de habitantes no planeta onde cada um representa uma pequena peça do enorme puzzle, individualidades com mais semelhanças do que por vezes uma complexa miscelânea nos permite identificar, começando no facto de partilharmos o mesmo espaço e por aqui andarmos “até que a morte nos leve”.

Tiago Mota Garcia

 

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