Discurso direto
Gosto quando me pedem para comentar expressões
Pedro Vieira

Gosto quando me pedem para comentar expressões, situações, afirmações, máximas que em si mesmas são redundantes, a saber, expressões como “o prazer da leitura” sabendo-se que onde a palavra leitura aterra o prazer está no sub-texto, está sempre implícito, é um pouco como dizer “Pedro Vieira é fraco de espírito”, ocasião em que o nome próprio e o apelido estão a mais, o fraco de espírito remete para, enfim, o prazer da leitura então, melhor, a leitura, não vivo sem ela, seja de fábulas, romances ou bulas, porque me dá gozo, porque me abre horizontes, porque me cimenta a relação com o verbo aprender. Tenho estima por ele. Guardo-lhe apreço e consideração. Ler é aprender, como viver é aprender, como viver no afã de conhecer autores livros enredos parágrafos chistes pontapés na gramática a que nos agarramos, tudo isso é aprender, ainda por cima com a garantia de que estes tesouros não se esgotam, de que temos o rei, mas também o plebeu, na barriga, de que temos os títulos na lombada, os nomes dos encantadores de serpentes nas capas. Ler é ter nas mãos o melhor dos mundos muitas vezes sem sequer nos movermos, de traseiro alapado no sofá ou consolados por ficarmos com os braços dormentes quando seguramos um Tolstoi contra o sol da Caparica, ler é tudo e sai barato. Abasteçamo-nos de letras nas livrarias ou nas bibliotecas. Nos supermercados ou na internet. Nas beiras de estrada ou nos folhetos do professor Fofana. Ler é aprender, escolhendo. O prazer, pois, está todo lá, ao virar da esquina. Ou da página.

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