Discurso direto
Herdei o prazer da leitura da minha mãe
Filipa Leal

Herdei o prazer da leitura da minha mãe.
Todos os meses, desde que me lembro de existir, chegava o catálogo do Círculo de Leitores e a minha mãe escolhia um livro para ela e deixava-me escolher um livro para mim. Sem censura. Sem rede. Foram as primeiras escolhas livres da minha vida, antes mesmo de saber escolher.
A minha mãe encomendava «O Marinheiro de Gibraltar» da Duras e eu pedia «A História do Senhor Sommer», de Patrick Suskind; e quando a minha mãe encomendava «Na Outra Margem entre as Árvores», de Hemingway, eu pedia, da Biblioteca Hitchcock, «Dia Difícil no Cadafalso». Íamos lado a lado, como sempre, descobrindo tudo. E o prazer daquela escolha, daquela liberdade, tornava ainda maior o meu prazer da leitura.
Chegou entretanto o dia, o mês, o ano, em que tínhamos escolhido o mesmo livro: «As Minhas Aventuras na República Portuguesa», do Miguel Esteves Cardoso. Ríamos da “Aventura dos Chumaços”; comovíamo-nos com o prefácio que começava assim: “Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda”.
A minha mãe deixou-nos há dias, para sempre.
O senhor que lhe trazia o catálogo do Círculo de Leitores voltou esta semana, e o meu irmão não soube o que lhe dizer. O senhor, se não me engano, é o mesmo há 25 anos. Eu era mais ou menos a mesma há 33, eu e os meus irmãos: filhos de uma mulher sublime que fez tudo para que atravessássemos a vida em liberdade. E com prazer.

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16 Comentários
  • Filipa, que bonito! Já tinha lido e hoje voltei a ler. Que sortuda és pela mãe que tiveste! Gosto muito de ti (agora que estou longe deu-me para o sentimentalismo…), do que escreves, de como vives a vida e a partilhas com os outros. É sempre um prazer estar contigo. Beijos e até breve!

  • Filipa, não te conheço e conheci pouco, há muitos anos e em tempos de maior ligeireza, a tua mãe. Ao ler-te, fico com muita pena de não a ter conhecido melhor e durante muito mais tempo.
    Se leres isto, dá um grande abraço ao teu pai (que me conhece bem).
    Fernando (em Bruxelas)

  • A Lena deixou-nos , sinto-me completamente perdido e amargurado!
    Mas deu-me três filhos maravilhosos, que são a única razão para insistir nesta minha sobrevivência extremamente dolorosa!

  • Lindo, querida Filipa. Comovente por tão sentido e sincero. De facto, perder a mãe é sempre uma revolução na nossa alma, e uma Mãe assim ainda o será mais… Mas, uma filha assim enche a alma de qualquer mãe. Resta-lhe, para além da saudade e da dor, da incompreensão e mesmo da revoltra, a memória dos vossos momentos vividos de forma tão especial.
    Um beijinho com muita ternura.

  • Comovi-me Filipa! Que afortunada te podes considerar, por teres tido a felicidade da liberdade e acompanhamento de uma Mãe tão especial.
    …..e não duvides nunca que continua a acompanhar-te sempre ;)

    um bji Benedita

  • cara filipa, desde amsterdam te envio um enorme beijo cheio de ternura. a tua mae havia de ter muito orgulho da pessoa que es.

  • que bela homenagem à vida, uma vida de partilha e amores vários, pela mãe e pela leitura. A vida continua tal como a leitura, um grande beijs, por ter descrito um percurso de filha orgulhosa de sua mae.

  • FILIPA, acompanhei pelo facebook a vossa tragédia, não perdeste a Mãe, ganhaste mais um anjo no Céu para olhar por ti, para continuar invisível a teu lado, como sempre fez,ninguém a vê;tu vais sentir a sua presença constantemente,porque ela vai estar SEMPRE LÁ!!! Beijo grande.

  • Cumplicidade que era tão evidente e que se refletia no brilho com que se olhavam…Um exemplo a seguir!.
    Querida Filipa, continua a brindar-nos com a delícia da tua escrita. Já tinha saudades
    Grande beijinho
    Elza

  • Filipa,
    Esta é uma bela homenagem à sua mãe a quem tive o prazer de conhecer…
    Eu…perdi um filho.
    O Ricardo teria hoje a sua idade.
    Como eu gostaria de poder inverter tudo e de estar ele, agora, aqui.
    Um abraço

  • Filipa: preciosamente sincero, como tudo o que escreves. Vou ser mãe em poucos meses e desejo, honestamente, passar pela mesma caminhada da leitura que ambas fizeram nestes últimos 33 anos. Bem-hajas pela palavra do sentimento (e não sentimentalismo). Mantém-te sempre assim!

  • Filipa,

    Que lindo texto dedicado a uma mãe, no qual me revi seriamente pois eu e a minha mãe partilhamos do mesmo prazer.
    Um bj mto grande.

    Mantém esse prazer, e fá-lo sentir nos teus mais próximos.

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