Novos Talentos FNAC Fotografia 2015
JANELA PARA LÁ
Ricardo Sousa Lopes

Embrenhei-me por aqui. 
Por enseadas escurecidas pela densidade da folhagem e pela luz baixa e perene das tardes de outono/inverno. Quero seguir em frente, quero ir sem me preocupar com a noite que se aproxima e não me vai iluminar o caminho de volta. Quero ir na mesma. Quero ver o que lá está. Almejo a tranquilidade que sei que lá está. Quero senti-la.
Embrenho-me.
Tudo aqui decorre a um ritmo muito próprio. Quando me embrenho por ali, o tempo cavalga devagar. Vagueio quase ao ritmo a que um ramo decai, até cair, seco e desprovido de vida. Sincronizo o meu tempo ao ritmo a que tudo ali se passa. É lento... tenho tempo para olhar com a calma que fora daqui é apressada.
Os sons são tranquilizantes. Não falam alto, não buzinam, não discutem. Sente-se sossego. O que se ouve surge isolado. Tudo é processado sem ruído de fundo, sem interferências. Ouve-se o tecer da teia, pela mais pequena aranha. O estalido das folhas ressequidas que partem sob o pisar de um qualquer ser que por ali passou. Sou transportado para uma outra realidade. Bem diferente da que se vive fora daqui. Além do que absorvo de tudo o que me rodeia, tenho na cabeça a música No Cars Go dos Arcade Fire. Aqui também não vêm barcos, aviões, carros, nem tão pouco, naves espaciais. Só a minha câmara veio comigo lá de fora.
Sigo ao ritmo a que uma folha caduca. Deixo-me absorver. Estou embrenhado. Sinto-me abraçado por esta floresta que vive.
O vento flui. Sussurra ao ouvido, como que querendo contar um segredo. Faz mover a vida que observo. Agita o que vive, ao mesmo tempo que isola o que decai. O que morreu, é erodido, também por ele. 
Vejo vida, noto decadência, observo morte... Vejo regeneração, crescimento e energia. Energia essa que não se alimenta de combustíveis fósseis. É inesgotável.
Continuo aqui escondido.
Cheira a pureza. O ar transporta mais oxigénio que lá fora. Inspiro fundo e os meus pulmões não ficam cansados.
A luz escasseia. Desenha a silhueta de formas contorcidas e amorfas. Distingue o que vive do que cada vez está mais isolado na sua deserção.
Fotografo porque quero levar de cá, o que aqui senti. Como se pegasse num ramo e o pusesse debaixo do braço. Quero ser transportado para aqui quando em meu redor não conseguir encontrar o sossego que aqui se me incorpora.
Não sei para onde vou, como eles dizem na música. Mas vou como se a minha janela estivesse permanentemente virada para aqui, sem desviar o olhar. Como se ao olhar através dela, me incorporasse de novo neste sítio. Onde quero estar quando não estou e de onde não quero sair quando vou. Sítio onde me encontro, esteja onde estiver. Onde quero estar, vá onde for.
Fotografei porque preciso. Fotografei para mim. Fotografei porque sim.

Ricardo Sousa Lopes

 

Ricardo Sousa Lopes (Coimbra, 1984) 

Tenho vivido em Benedita, concelho de Alcobaça, local onde cresci e onde resido actualmente.
O meu pai, com a sua velha 35mm, fazia questão que a Fotografia marcasse presença, como ferramenta para registo e memória futura de momentos irrepetíveis. Foi através de imagens captadas pela sua câmara que conheci pessoas, momentos e locais que, de outra forma, já não me era possível conhecer.
Ao longo dos anos, fui passando a estar atrás da câmara. Apesar de um percurso académico absolutamente distante, fui nutrindo e alimentando a paixão pela Fotografia ao longo dos anos. Cresceu comigo e acompanhou-me desde sempre.
Em 2013, ingressei no Curso Profissional de Fotografia do Instituto Português de Fotografia, decisão que em muito contribuiu para a consolidação do meu gosto e interesse pela Fotografia. Pretendia que a Fotografia passasse a ser personagem principal na minha vida profissional, apesar de já o ser a nível pessoal.
Trabalho como Fotógrafo desde a conclusão do curso, em Maio de 2015, mantendo em paralelo a realização de trabalhos autorais que alimentam a necessidade que tenho de fotografar por mim e para mim.