Exposição
Limbo
FOTOGRAFIAS DE Mariana Lopes | NOVO TALENTO FNAC FOTOGRAFIA 2016, MENÇÃO HONROSA

Toda a matéria orgânica segue uma trajetória: vida, morte, decomposição e finalmente o total desvanecimento material.

Do grego taxis, que significa arranjo, regularização, ordem; e derma, pele; a taxidermia refere-­‐se na generalidade a qualquer tipo de trabalho com pele de animais (um tapete de pelo de urso, um casaco de vison) e mais especificamente à prática de recriar um animal. Na taxidermia o vazio torna-­‐se cheio e o que estava morto torna-­‐se uma recriação do animal em vida, criando a ilusão de estar vivo.

Preservar a pele de animais é uma prática antiga, tendo sido encontrados animais embalsamados junto com múmias egípcias, embora esta prática não seja considerada taxidermia. Os primeiros exemplos de taxidermia remontam à Idade Média, tendo tido o seu apogeu de popularidade e desenvolvimento técnico na época vitoriana em Inglaterra, onde os animais se tornaram parte da decoração de interiores.

A taxidermia existe devido à inevitabilidade do caminho da vida para o desvanecimento, pressupondo uma tentativa de paragem do tempo. As razões são várias: validação pessoal de um caçador, o prémio; imortalizar um animal de estimação, documentar uma espécie por razões científicas, decorar uma parede, causar horror…não é possível, contudo, dissociá-­‐la da nostalgia. Para além da morte e destruição, a taxidermia expõe os anseios que rodeiam as relações humanas com e dentro do mundo natural; a estranheza que é fazer parte e estar aparte da natureza. Animal ou objecto? Animal e objecto?… A taxidermia não lida com a ideia de ressurreição, mas antes com a de eternidade. E para tal o animal tem de estar morto. Morto mas não desaparecido, numa homenagem ou violação à natureza, uma tentativa do homem contornar a questão da vida e morte.

“Limbo” explora as várias fases de transformação do animal em objecto e reflecte sobre em que é que ele se transforma, o que são esses animais agora: sem músculos, ossos, sangue, modelados em poliuretano, montados em bases metálicas, depois cobertos com a única coisa orgânica que lhes resta: a pele. Apresenta-­‐se o confronto desse ser em transformação com o meio natural em que ele se inseria antes de morrer. Um animal-­‐objecto não finalizado, mostrado durante o processo de transformação. Desde o molde de fibra de vidro até ao animal inteiro, uma espécie de visão de um producto  “frankensteniano”, onde se misturam materiais, onde se acrescentam bases metálicas, onde se molda plástico misturado com a matéria orgânica, onde se cose pele e se unem retalhos , onde se reconstrói e reeinventa de acordo com a técnica humana, de maneira a tornar o animal o mais parecido possível com a sua forma orgânica original. É nesses retalhos, devolvidos à natureza, que reside a ironia da trajectória da vida, da constante batalha contra o seu curso  e a fatalidade da própria condição humana, representada, neste caso, numa perpetuação da presença estética do animal, fundindo imortalmente a forma animal e o desejo humano de perpetuar a beleza, presença e posse.

Mariana Lopes

Referências:

BAKER, Steve, The Postmodern Animal (Essays in Art&Culture), Reaktion Books Março 2011 BROGLIO, Ron, Surface Encounters : Thinking with animals and art, University of Minnesota Press, Dezembro 2011 MADDEN, Dave, The Authentic Animal : Inside the odd and obsessive world of taxidermy, St. Martin’s Press, Nova Iorque, Agosto 2011

POLIQUIN, Rachel, The Breathless Zoo: taxidermy and the cultures of longing, The Pennsylvania State University Press, University Park, Pennsylvania,2012

Online Etymology Dictionary

 

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