Novos Talentos FNAC Fotografia 2014
LUZ INTERIOR
Helena Flores

Luz Interior aborda o tema da cegueira. E, se para alguns, a cegueira é sinónimo de escuridão, neste trabalho deixamos a luz crescer na mão da Ana. Ana é invisual desde o nascimento. Deixou-se fotografar enquanto explorava as esculturas contemporâneas do Parque de Serralves. E ousou mostrar como as diferenças entre ela e os outros, os normovisuais, se esbatem quando regista em desenhos a memória do que sentiu. Vemos (artifício nosso, com recurso ao negativo), como transforma o negro em linhas de claridade, como traça no papel os contornos das esculturas observadas pelos outros sentidos, provando que a imagem e a memória dependem tanto destes como da visão.

Helena Flores

Helena Flores

A fotografia tem sido uma intermitência na minha vida de quase 36 anos a fazer outras coisas: a estudar, em Vila do Conde ou no Porto, onde há década e meia completei o curso de enfermagem; a trabalhar, nessa profissão que ainda hoje me ocupa grande parte dos dias.  Lá em casa, comprámos a nossa primeira câmera SRL durante a lua-de-mel, há 13 anos, assumindo uma paixão comum, familiar, por essa ideia de escrever com a luz. A primeira SRL digital chegou com o nascimento da nossa filha, há seis anos e eu, que vinha alimentando o desejo de fotografar mais, de fotografar melhor, inscrevi-me em 2013 no curso profissional de fotografia do IPF, cujo segundo ano frequento agora, num desafio às minhas capacidades, aos meus limites, e à minha imaginação. Em Agosto de 2014 expus pela primeira vez, em espaço público, nas varandas de uma rua de Caxinas, Vila do Conde. O projeto, Saudade Levada ao peito, incluía um conjunto de 18 fotografias, impressas em tecido de grandes dimensões, sobre o luto e a forma como muitas mulheres desta conhecida comunidade piscatória, onde a minha identidade se inscreve, o vivem: ostentando medalhões com a imagem de entes queridos que prolongam, no tempo, a memória destas pessoas. Fazendo cumprir uma função primordial da fotografia.

 

Argumentário do júri

Ver o sentir

Ana nunca viu uma fotografia. Nunca viu sequer uma imagem que esteja num campo palpável, qualquer que ele seja. É cega de nascença. E as imagens que forma (e as que guarda) são as da sua memória, uma “máquina fotográfica” que, em vez da luz, usa o sentir, a recordação, a lembrança e a imaginação, que mais não é do que uma representação no espírito. Dessa experiência saem imagens que podem muito bem ser uma antítese da fotografia - não têm a ambição de se tornarem cópias fiéis de nada, não pretendem cunhar a realidade com verosimilhança, nem tampouco encontrar-lhes composições certinhas. Pelo contrário, desse sentir brotam imagens mais difíceis de estabilizar, mais rarefeitas, e por isso talvez mais livres e honestas, imagens que para existirem não precisam do embaraço da transposição exacta da realidade.

Luz Interior, o trabalho com que Helena Flores venceu o prémio Novo Talento FNAC Fotografia 2014, lembra-nos como a formação de imagens está muito para lá da capacidade técnica de as reproduzir. O exercício sensorial a que Helena se dedicou com Ana tem a força conceptual e o poder das coisas simples para nos fazer pensar na assombrosa riqueza da memória e num sentido tantas vezes esquecido - o tacto.

Em Luz Interior, a fotografia expande a sua acção para além das coisas “terrenas” e entra no campo da psique, perscrutando novas formas de representação do mais puro sentir. 

Neste exercício de delicadeza e serenidade, Helena Flores promove uma série de encontros com realidades de grande poder sugestivo (esculturas a céu aberto nos jardins do Parque de Serralves, no Porto) para que os sentidos de Ana se apurem ainda mais, uma carga sensorial depois vertida para desenho sobre papel fotográfico, uma escolha certeira que tem tanto de paradoxal como de desafiador.

Ao lado de registos dos momentos em que Ana se prestou a tactear as formas e as texturas de uma dezena de obras espalhadas por entre o arvoredo surgem imagens que saíram da sua condição phantasma rumo à inscrição e à representação. Um caminho que vai da imagem, sentida e imaginada, ao corpo, à forma e ao suporte.

Ao olharmos para estes dípticos, a tentação imediata é a de tentar encontrar familiaridades, pontos de contacto entre as fotografias captadas por Helena e os desenhos de Ana - são, de alguma maneira, imagens próximas, cúmplices. Mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de as sentir distantes, não tanto pela sua natureza canónica distinta, mas sobretudo pela diferença de discurso que potenciam. São imagens totalmente diferentes da mesma coisa. Mostrar-nos que o que as separa é mais interessante do que o que as junta é uma das grandes virtudes de Luz Interior.

Boa parte das imagens de Helena Flores dá-nos o contexto mínimo da experiência táctil de Ana. É o suficiente para a fotografia nos aprisionar nesse espaço também, levando-nos a participar nesses gestos de descoberta. Ao lado, surgem os desenhos “fotografados” de Ana, de traço inseguro, aproximado, idealizado. Através deles, sentimos a liberdade das suas imagens, temos uma amostra da materialização da sua imaginação.

Estes desenhos, lado a lado com as fotografias, lembram-nos como também é preciso libertarmo-nos das imagens circunscritas, das imagens reais, rumo a representações mais abstractas e fugidias - lembram-nos como também é bom perdermo-nos na imaginação.

Os dípticos de Luz Interior enleiam-nos no seu poder paradoxalmente definitivo e aberto. É um exercício que desafia as lógicas com que nos habituamos a ler as imagens do que nos rodeia.

As fotografias de Helena Flores dão-nos a mão para sentir como Ana. Os desenhos de Ana conseguem levar-nos a desenhar, em pensamento, o que acabámos de ver - convidam-nos a fechar os olhos e a imaginar. 

É um trabalho que provoca uma fricção entre as imagens que se formam a partir das coisas palpáveis e as imagens que se formam a partir de uma abstracção, de um pensamento. É extraordinário como este par carrega poderes tão díspares e ao mesmo tempo tão irremediavelmente apegados. 

O trabalho concebido por Helena Flores impregna o visual com o táctil, com a matéria, e relativiza o compromisso das imagens fotográficas com o real. A maneira como estes dípticos insuflam a imaginação está ligada a uma corrente especulativa da fotografia contemporânea que nos últimos anos se tem afirmado com estrondo no campo das artes visuais.

As imagens vertidas em Luz Interior incitam-nos a reconfigurar as nossas coordenadas em relação às imagens e à forma como apreendemos o que nos rodeia. Através de uma abordagem poética, filosófica e fenomenológica, Helena Flores baralha as noções de visível e de invisível, de ausência e de presença - mostra-nos como, afinal, a fotografia pode estar mais perto do sentir do que do olhar.

Sérgio B. Gomes

 Membro do júri do Novo Talento FNAC Fotografia 2014