Exposição
MAURITÂNIA: OS PEREGRINOS DO MAR SÃO NEGROS E POBRES
Fotografias de Nelson Garrido

Oitocentos quilómetros separam a Mauritânia das Canárias. Oitocentos quilómetros que todos os anos são percorridos por milhares de emigrantes clandestinos em busca do que pensam ser o paraíso: a Europa. Para eles, a distância é sinónimo de esperança. Ainda que muitos morram, outros sejam repatriados e poucos consigam ficar. Andámos 9000 km de estrada, durante 20 dias, à procura dos sonhos e dos pesadelos da emigração.

Vêm de muitos cantos da África subsariana. Saem do Senegal e do Mali, do Níger ou da Guiné e deslocam-se através dos meios de transporte mais imaginativos e impensáveis para a costa da Mauritânia, para Marrocos ou para o Sara Ocidental. O seu primeiro objectivo é encontrar um lugar nas famosas pirogas que os podem aproximar da Europa.

Até lá chegarem, percorrem milhares de quilómetros numa viagem atribulada por terra. Sem horários, paragens e bilhetes programados, fazem o caminho como podem: à boleia, muitas vezes em camiões apinhados de gente. As localidades à beira destas estradas parecem povoadas de almas em transição, num espaço sem tempo e sem futuro. Que, quando existe, só se mostra depois da tão esperada viagem.

À chegada à costa da Mauritânia, na capital Nouakchott ou em Nouâdhibou, a espera é incerta e volátil. Pode demorar dias, mas há também emigrantes que chegam a estar meses à espera, em casas esconsas de bairros degradados, que os chamem para o embarque. Muitos passam os últimos dias desta espera em escarpas de difícil acesso, junto ao mar, onde se escondem de tudo e todos.

Para os afortunados que sobrevivem à prepotência dos traficantes ou ao infortúnio dos naufrágios, a chegada à Europa representa muitas vezes o início de novas dificuldades. Muitos chegam a esperar três anos para conseguirem papéis. Algumas mulheres atravessam grávidas, na esperança de ser mais fácil legalizar-se e ficar. De comum a todos os sobreviventes da migração iniciada no coração da África, há o estatuto da clandestinidade. Encontrámos vários imigrantes nestas condições em Algeciras, Espanha, apoiados pelo famoso padre Pateras. Uns serão repatriados, outros talvez venham a ter sorte e possam ficar. Para os padrões europeus, as casas onde se instalam indignam pela sua evidente falta de condições. Os clandestinos, porém, não desesperam: apesar de tudo, vivem ali muito melhor do que viveriam nos seus países de origem.

Nelson Garrido

Fotojornalista do Jornal Público

Reportagem realizada em colaboração com o Centro de Estudos Africanos, uma unidade de investigação da Universidade do Porto

 

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