Discurso direto
“Memória do Café Gelo”
Por António Barahona

à memória de Mário Cesariny de Vasconcelos

 No Café Gelo, um grupo de poetas
demanda o elixir de vida curta,
de longa morte lenta e absoluta
e sílabas secretas.
Mesas de mármore, cadeiras sépia;
eis um café à beira do abismo:
conversas incendidas, sismo a sismo,
no desabar da época.
Revolta, ódio, fome, febre atroz:
no riso pode haver isto e tristeza
e grande amor do sonho, e da beleza
a que o grupo dá voz.
Não morreu este grupo: é perene
seu eco que deixou alto-relevo
numa parede-mestra, aonde subo
a pulso e tão solene!
De cima da parede espreito e vejo
uma mesa ocupada por nós todos:
assembleia de pássaros ignotos
em ilhas de desejo.

Vejo o corpo de glória de Lisboa
reclinado no ombro do Ernesto
para ler bem o seu ensaio honesto
dedicado a Pessoa.
Vejo o Herberto a discutir mui louco
com o Gonçalo Duarte e o D’Assumpção;
o Forte tem o coração na mão
esquerda e fala pouco.
Vejo o perfil do Saldanha da Gama,
o Virgílio em tríptico esboçado,
Raul Leal, d’Orpheu, Henoch irado
com lucidez de flama.
Vejo um adolescente que sou eu
e que aspirava tanto a morrer jovem,
sentado, entre nós outros, quase à margem
numa fresta de céu.
Manuel de Castro bebe o seu bagaço,
João Rodrigues faz desenho à pena
e Mário Cesariny põe em cena
a sua luz no espaço.
Passaram para mais de cinquenta anos
e uma tal luz persiste, não esmorece:
ilumina a leitura até ao vértice,
em versos soberanos.

 Poeta engalanado de galfarros,
noctívago andador com pés de jade
e poesia, amor e liberdade,
e mais de mil cigarros.
Nas nuvens, que se formam ao redor,
repousam borboletas d’asas pandas,
inebriadas pelo fumo às ondas
e cada vez maior.
Rio de fumo espesso que atravessa
o jovem mágico, o das mãos de oiro,
esse que a remar não se cansa muito
e olha tão depressa
tal se fosse de moto a singrar
no Tejo até à foz, do céu suspenso
por um fio de voz, vindo do imenso
cintil azul do mar.
Na sombra, Cesariny d’alto porte,
agora dá mais luz, arde a cidade,
em poesia, amor e liberdade,
até matar a morte.

 

António Manuel Baptista Barahona da Fonseca (nascido em 1939) estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e viveu alguns anos em Moçambique. Influenciado pelo surrealismo, pertenceu ao chamado Grupo do Café Gelo. Colaborou no primeiro e segundo cadernos de Poesia Experimental, entre 1964 e 1966. Em 1975 converteu-se ao islamismo, adoptando alternativamente o nome de Muhammed Rashid. As suas obras exploram preferencialmente os domínios do sonho e do misticismo e revelam, normalmente, uma religiosidade explícita. No seu anarquismo poético mescla elementos cristãos, islâmicos e hinduístas. A paixão pelo sânscrito levou-o ao Oriente para estudar a língua. Dominado por uma tendência forte para a provocação e a polémica, a obra Alicerces dos Telhados de Cristal colocou-o ao lado de quem atacava, Salman Rushdie, pela escrita de Versos Satânicos. Também geraram polémica as duas cartas abertas que escreveu em 1998 sobre o que considera ser o crime do aborto e sobre a reflexão pós-referendo relativa à laicidade e pluralismo religioso na Europa.

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