Discurso direto
Nasci limitado a um corpo, a um tempo e a um país…
Nuno Camarneiro

Nasci limitado a um corpo, a um tempo e a um país. Não acredito em vidas passadas ou futuras, sou isto, agora e por mais algum (pouco) tempo. Não vivi na Grécia antiga nem em Roma, não descobri a América, não fui rei nem soldado, não vou conhecer o futuro nem a resposta a tantas perguntas.

De tudo o que não me foi dado, só um consolo para tanta perda. Ler, ler muito sobre tudo, os clássicos, os modernos e os contemporâneos, história, filosofia, romances, ficção científica e poesia, sobretudo a poesia.

Somos mortais e passageiros, por isso lemos e às vezes até escrevemos.  Para mim, que não tenho deuses, só os livros são um contrário da morte. 

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  • Uma reflexão funda, um apelo ao “agora e por mais algum (pouco) tempo”, pois, de vindouras e passadas existências, adjuvantes vidas que vogam rumo à crença intrínseca de muito, “um consolo para tanta perda”, é a descrença apanágio de quem, só para quem, “os livros são um contrário da morte”. Camaneiro transpõe as sensibilidades, avança rumo à incógnita do simples, da verídica sentença, “Somos mortais e passageiros”. O que representa a inexistência? O autor responde, “Nasci limitado a um corpo, a um tempo e a um país”. E tudo é dito. Camarneiro é um proeminente escritor, cuja capacidade surpreende até o leitor mais incauto, pela proximidade das suas palavras.

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