Discurso direto
“Painel”
Por António Manuel Couto Viana

Em que sepulcro jaz o seu corpo incorrupto?
E a espada que tombou dos seus dedos já frios?
(No verde do olhar, naufragaram navios,
Pesados de brandões e bandeiras de luto.)
Que carpir de saudade nas guitarras escuto?
Quem entranhou de sangue estes campos vazios?
Quem secou as searas e o fluir dos rios?
E apodreceu pomares e esmagou cada fruto?
Foi esse que cingiu a armadura de ferro
E assistiu de rojo e nu ao próprio enterro,
No ermo de um ossário, pela névoa encoberto.
Dobram os carrilhões de todos os conventos.
A Corte estranha passa, em passos graves, lentos…
Diante de um caixão de areia do deserto.

 

António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo em 1923 e foi um encenador, tradutor, poeta, dramaturgo e ensaísta português. Recebeu, muito novo, como herança do avô, o Teatro Sá de Miranda (Viana do Castelo). Em 1948, publicou o primeiro livro de poemas O Avestruz Lírico e, entre 1949 e 1951, dirigiu a revista infanto-juvenil Camarada. Foi empresário e director do Teatro do Gerifalto, companhia onde se estrearam nomes como Rui Mendes ou Morais e Castro. Entre 1950 e 1960 dirigiu a publicação de várias revistas literárias e de cultura, tais como os cadernos de poesia Graal, Távola Redonda e Tempo Presente. Encenou e dirigiu as companhias de ópera do Teatro Nacional de São Carlos, do Círculo Portuense de Ópera e da Companhia Portuguesa de Ópera. Viveu dois anos em Macau, onde foi docente do Instituto Cultural. Viveu os últimos anos na Casa do Artista, continuando a escrever e a publicar. Tem mais de uma centena de livros publicados e a sua poesia está traduzida em francês, inglês, espanhol e chinês. Foi condecorado com a Banda da Cruz de Mérito, Grão Cruz da Falange Galega, o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique e a medalha de Mérito Cultural da Cidade de Viana do Castelo. Morreu em Lisboa, no dia 8 de Junho de 2010.

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