Novos Talentos FNAC Fotografia 2012
Paisagem Híbrida
Tiago Casanova

São 09:06 do dia nove de novembro de 2011 e estou a bordo do voo TP 1573 com destino à Madeira. (...) Vou a caminho de casa e sinto um nervoso miudinho como se de um sítio desconhecido se tratasse. Vou conhecer uma Madeira nova, ou pelo menos com um olhar que irá encontrar locais novos, diferentes e transformados. O avião começa a descer. A Madeira está lá em baixo. De longe percebemos a sensação dos Descobridores ao avistarem pela primeira vez esta ilha, e percebemos de onde vem o seu nome. Uma intensa vegetação tropical enche e cobre a ilha de verde, mas não posso deixar de reparar nos vários aglomerados urbanos, nas casas dispersas, nas estradas e ainda em algumas construções megalómanas. O construído confronta o natural de um modo dual. Grandes cicatrizes são abertas, mas a consumação do acto torna os elementos construídos parte de uma nova paisagem, que nos provoca tanto descrença como fascínio e é tão feia como bela.

Excerto do Diário de Viagem

 

A série Paisagem Híbrida pretende guiar o espectador numa viagem pela ilha da Madeira através de um percurso fictício que evidencia relacionamentos e confrontos entre os vários elementos que compõem este território. Um confronto entre Estado Selvagem e Transformação, que resulta num ser híbrido Natureza-Construção.

Do Hibridismo interessa-me este cruzamento de espécies que logo à partida não sabemos definir muito bem quais são, resultando num ainda mais enigmático ser não humano que habita o território contemporâneo, que é estéril e causa desconforto por não se enquadrar em nenhuma tipologia ou padrão. Da natureza nem sabemos muito bem avaliar o seu grau de “naturalidade”, pois a presença humana já deixou a sua influência até nos mais selvagens dos territórios, nem que seja pelas suas (ir)responsabilidades nas alterações climáticas.

Interessa absorver imageticamente esta transgénese, pois o conceito de Natural foi o primeiro a habitar este território, lembrando que no acto de Descoberta no século XV a ilha foi baptizada com o nome de “Madeira”, em referência directa ao material, forçosamente conotado com o estado natural e selvagem em que foi encontrado.

Tiago Casanova