Exposição
RETRATOS DO CANTE
Fotografias de Álvaro Barriga, Armando Morais, Francisco Romão, Maria Moreira, Pedro Barrocas e Ricardo Granjeia.

DATAS:

22/04/2017 - 22/06/2017 Braga

RETRATOS QUE CANTAM

As fotografias também cantam? Também se lhes ouve a voz? Ou serão meras retentoras do silêncio num preciso instante luminoso? As imagens que compõem este projeto cantam por si! Aliás, no Alentejo tudo canta por si. As pedras. As sombras frescas. Os rebanhos. A cal. O barro fértil. O vagar e o suão cantam por si. O cantar sai em borbotão de dentro dos homens e das mulheres do Sul. Mas a música, a harmonia, a cadência está em cada regato de água. Está na horizontalidade das azinheiras. Está em tudo e em todo o lado. Mesmo ao mais ensurdecedor dos silêncios do estio alentejano o que lhe sobrevive é o cantar. E por isso se avisa desde já que esta não é propriamente uma exposição de fotografia: é uma moda entoada em uníssono, embora com seis estilos, pontos e altos diferentes.

“Retratos do Cante”. O título do projeto é esclarecedor. No ano em que se celebra a inscrição do cante alentejano na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, um conjunto de fotógrafos partiu na demanda dos rostos que cantam. O desafio é interessante e o resultado surpreendente. Há no semblante de cada cantador do Alentejo muito mais do que uma mera expressão que o fotógrafo retém naquele efémero instante. Há na face de cada cantador do Alentejo um pedaço real desse mesmo Alentejo. Um pedaço que se ouve e que perdura mesmo num pedaço de papel impresso com cristais de prata.

Não importa chamar para aqui qual a moda que cada cantador ou rancho afinava no instante do retrato. Aliás, essa revelação limitaria por completo a abrangência deste projeto. Retirar-lhe-ia aquilo que as imagens têm de melhor, a sua verdadeira essência ou magia: o poder de prolongar o instante. Quando uma boca se arredonda no retrato não é uma moda que ela emana, é todo o cancioneiro alentejano. Cada um de nós, que observamos do lado de cá das imagens, temos pois esse raro privilégio de poder escolher a moda que melhor se adequa a cada um dos retratos. É também esse o grande poder da fotografia, o poder da imaginação. E por isso se disse que estas imagens cantam por si, dentro de cada um de nós.

O cante é a mais representativa e a mais emblemática das expressões culturais do Alentejo. Sabe quem canta, ou somente quem escuta, que a grandeza desta prática ancestral advém de todos os pormenores que o meio envolvente fornece. E que igualmente se prolonga ou se confunde com o próprio meio. Numa palavra apenas, os antropólogos costumam chamar a este fenómeno identidade. O cante é o grande valor identitário do Alentejo. A UNESCO não deixou de o reconhecer. É disso que tratam estes retratos que cantam todas as modas que cada um saiba ou tenha capacidade de imaginar.

Paulo Barriga

 

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