Novos Talentos FNAC Fotografia 2015
School Affairs
João Henriques

Em 2011 voltei à escola para estudar Fotografia. Desejava saber mais e conhecer novas pessoas. Estando na meia-idade e em crise vocacional acerca do que fazer da minha prática fotográfica, decidi que seria interessante explorar o conceito de crise, da idade e da vocação, através deste trabalho.

As imagens procuram estabelecer uma narrativa onde se enlaçam escopofilia e voyeurismo, percorrida por um personagem fictício, invisível ou em burnout, doença psíquica característica na meia-idade. A visão e o olhar (gaze) são o fio condutor desta trama, e apesar do retrato estar assiduamente presente, nele raramente o olho se faz ver, e quando aparece, fá-lo sempre em viés, enunciando uma distorção, uma frustração do olhar, ou uma fantasia que não se materializa. Por outro lado, o corpo feminino duplica esse lado conceptual, pois sendo atravessado por um desejo crescente, de materialização e de visão, esse desejo nunca é concretizado, o corpo nunca se revela, ou se o faz é de forma quase invisível, sem contornos, amorfo.

Esta série constitui-se portanto de forma dupla: num primeiro tempo em história fictícia acerca da fantasia acerca do corpo feminino, revelando a crise da meia-idade, fantasia que nunca se concretiza, apesar do nu não há identidade, apesar do olhar não há olho, ou quando há é artificial; posteriormente, esses elementos narrativos poderão convocar questões centrais da fotografia, que vão desde os limites da visão enquanto fórmula de conhecimento a questões éticas sobre a objectificação do corpo feminino e a alteridade.

João Henriques

João Henriques (Tomar, 1967)

Licenciatura em Gestão de Empresas pela Universidade de Évora (1990). Mestrado em Fotografia Aplicada pelo Instituto Politécnico de Tomar (2013). 

 

ARGUMENTÁRIO DO JÚRI

Exercícios do desejo

Vivemos mediados por imagens. Imagens de imagens. Imagens com imagens. A novidade da cultura moderna é esta possibilidade de convergência de umas imagens nas outras, que na pintura clássica só esporadicamente era possível — a fotografia e o cinema não inventaram a citação, a cópia e a reprodutibilidade, mas elevaram-na exponencialmente a um nível inédito. O trabalho de João Henriques para o Prémio Novo Talento FNAC Fotografia explora todos esses sentidos desta: mediato, imediato, referencial, diferido.

Ao longo da série de vinte fotografias, João Henriques foca o seu olhar em pequenos pormenores evitando a centralidade do enquadramento, a evidência do objecto, centrando as suas imagens no poder evocativo, e não necessariamente descritivo, da fotografia. Sombras, corpos femininos fotografados  parcialmente, de viés, recortados de outras imagens que circulam no quotidiano, olhando para a própria objectiva ou para um painel oftalmológico, em momentos auto-reflexivos, estas imagens evocam a transitoriedade da experiência perceptiva e a forma como grande parte desta experiência é sempre apenas vagamente consciente, apenas vagamente objectiva.
Neste sentido, elas constituem uma espécie de caleidoscópio sensorial, onde o desejo se insinua mais do que se enuncia. As imagens de corpos femininos parecem incutidas de um jogo de revelação/ocultação, fotografados estes, sempre, ou quase sempre, de forma metonímica: deixam ver apenas uma parte do corpo parcialmente coberta pela roupa; em alguns casos, trata-se de imagens já mediatizadas, incutindo inevitavelmente uma ideia de distância — o rosto desenhado na tee-shirt na rapariga de costas, o rosto feminino ‘top model’ estereotipado/idealizado — ou o rosto de mulher que não olha para a câmara, mas que se volta para o lado e para baixo, fechando os olhos. Estas imagens que lidam com o desejo atravessam toda a série de forma homogénea e coerente, integrando-se num conjunto mais vasto, no qual outras imagens de fragmentação e de precariedade pontuam as relações intersubjectivas do fotógrafo com esse objecto de desejo: os cigarros por fazer, a sombra projectada da árvore no muro de tijolos, as cadeiras empilhadas e abandonadas.

Parecendo um puzzle no qual as peças não encaixam, a coerência do projecto reside na criação desse ambiente distópico e simultaneamente utópico, no qual corpos se movem e desaparecem, acções se suspendem ou interrompem, formando um conjunto de imagens cheio de tensões, desejos, olhares, que sublinha a vocação transformadora da fotografia face à realidade que apresenta. O título, School Affairs, remete para a própria biografia do seu autor, que foi estudar fotografia já num contexto de maturidade, sugerindo o carácter de exercício ‘escolar’. De algum modo o título é um disfarce: na verdade trata-se de um exercício elaborado e toda a sua aparência exploratória se exerce aqui não como condição exterior (um trabalho de escola) mas como estilo.

Margarida Medeiros

Membro do júri do Novo Talento FNAC Fotografia 2015