Discurso direto
Seria fraco o prazer que a leitura me proporciona se o soubesse definir ou explicar.
Dulce Maria Cardoso

Seria fraco o prazer que a leitura me proporciona se o soubesse definir ou explicar. O inexplicável e o indizível fazem parte da natureza dos prazeres mais intensos e acrescentam prazer a esses prazeres. O prazer da leitura é um prazer misterioso e indomável.

Ainda assim, poderei dizer que entendo a leitura como uma conversa com alguém que falou sozinho durante meses ou anos para que eu possa ouvir o melhor que tem para me dizer. Não sei se escrever é uma acto de generosidade ou de arrogância. Agrada-me pensar que não é uma coisa nem outra. Agrada-me pensar que é um acto de fé:  cada escritor que leio é um escritor que acreditou que eu seria sua leitora e me escolheu. A leitura é o milagre de fazer com que eu responda a essa escolha. É o milagre de me encontrar com o escritor. E não importa que esse encontro aconteça séculos depois da sua morte ou a centenas de milhares de quilómetros do local onde passou horas a corrigir uma frase.

Não é como leitora individualizada que falo. O acto de ler sobrepõe-se a quem o pratica e parte do prazer que se experimenta, reside também em participar numa (ir)realidade tão estranha quanto maravilhosa.

 

Nasceu em Trás- os – Montes, em 1964.Tem pena de não se lembrar da viagem no Vera Cruz para Angola. Da infância guarda a sombra generosa de uma mangueira que existia no quintal, o mar e o espaço que lhe moldou a alma. Regressou a Portugal na ponte aérea de 1975. Licenciou-se em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa, escreveu argumentos para cinema, gastou tempo em inutilidades. Também escreveu contos. Vive em Lisboa.

 

Bibliografia:

  • Campo de sangue, Porto, Asa, 2002
  • Os Meus Sentimentos, Porto: Asa,
  • Contos Policiais , Porto Editora, 2008
  • Até nós, Porto: Asa, 2008
  • O Chão dos Pardais, ASA, 2009

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