Exposição
SilentGezi
Fotografias de David Araújo

Where there is a will, there is a way

(onde há uma vontade, há um caminho)

Provérbio Turco 

Dia 1. Istambul. A polícia invade, no início da noite, o Parque Gezi, palco do protesto que agita o país há duas semanas, num vasto movimento de contestação política contra o governo muçulmano-conservador, liderado por Erdogan. A repressão instala-se. O medo alastra-se a toda a cidade.

Dia 4. Praça Taksim. O silêncio da presença. Os olhares fixam o Centro Cultural Ataturk. Dos gritos em coro e da repressão policial para a resistência passiva, marcada pela quase ausência de ruídos. De pé, imóveis, centenas de turcos manifestam-se. Não há gestos nem palavras. Um silêncio ensurdecedor. Resistência silenciosa.

O silêncio transforma-se numa força de crescimento coletivo. É pacificação, mas também consternação e revolta. Surpreende. Marca. Solidariza, tanto quanto faz sonhar. Taksim é um novo símbolo da força do espaço público. A força dos corpos que juntos produzem um momento democrático e criam uma perigosa crise política para a liderança. O que está em jogo é mais do que uma praça. É a alma de uma nação.

Dia 5. Kayseri. O silêncio da rotina, da crença, da oração, fonte de respiração da alma. O que a vida religiosa exige é que se deixe instalar o silêncio para que Deus fale, que se entre no silêncio de si para aí ouvir a Palavra. Quando amamos, procuramos a sua presença: basta então que aquele que procuramos esteja lá, mesmo que nenhuma palavra se troque: essa é a verdade do silêncio interior. Nesse silêncio escuta-se o que vive em nós, a palavra. É o silêncio solitário da religião. Aqui também se acredita e se resiste. Com fé. É velha a relação de Deus com os homens.

Turquia. A força dos contrastes de um país em que as coordenadas da fé muçulmana e da democracia liberal teimam em não convergir. Um país ainda à procura da (re)construção da sua identidade. Uma palavra apenas. A que se busca desde o início, entre duas realidades, condenadas a conviver: o conservadorismo do Islão e o liberalismo do mundo ocidental.

O humano, porém, não consegue unir ou desunir a não ser com som, ruído ou grito. Mas agora, o silêncio. Ver é ainda o sentido que resta a esta procura. Ver nos outros, nos silenciados e em nós, a sua extensão. O silêncio que grita. O silêncio que tem o poder de ser mais perturbador do que tudo. Eu escolho manter o silêncio.

As paredes estão brancas agora. As imagens ficaram por trás. A parede fica vazia para que o interior possa guardar o que é para ficar guardado, “onde há uma vontade, há um caminho”.

David Araújo

 

Deixe um Comentário

1 Comentários

*