Novos Talentos FNAC Fotografia 2006
SLOBODJ
IVO DIAS DE SOUSA & JOÃO PAULO AÇA

O processo que guia a concepção e construção de cada imagem em Slobodj remete para A Biblioteca de José Luís Borges e para A última obra-prima de Aaron Slobodj de José Carlos Fernandes, uma banda desenhada da qual os autores também retiraram o título deste portfólio.

O texto de José Luís Borges refere-se a uma hipotética biblioteca contendo todos os livros escritos e por escrever. Por exemplo, no caso de Romeu e Julieta de William Shakespeare, a biblioteca conteria o romance publicado bem como as suas infinitas variações. Assim, e segundo Borges, o escritor não cria, apenas localiza livros nessa imensa biblioteca.

Prolongando o sentido deste texto, Ivo Dias de Sousa e João Paulo Aça consideram a existência de uma imensa biblioteca de imagens com infinitas mutações e combinações de todas as imagens realizadas e a realizar. O fotógrafo, à semelhança do escritor em A Biblioteca, limita-se a descobrir as imagens que fazem mais sentido, pois elas já existem, sempre existiram.

O autor de A última obra-prima de Aaron Slobodj, a segunda fonte de inspiração dos fotógrafos, confronta 38 imagens com 38 textos, num livro imagens e textos podem ser conjudados entre si, em 1444 combinações distintas. Este conceito é retomado pelos autores na sobreposição de imagens e na selecção dos diálogos inter-imagem mais pertinentes. 

As imagens resultantes colocam o espectador perante algo de estranhamente familiar. Slobodj é construído com imagens oriundas de livros de Arte, Cinema e Banda Desenhada. Imagens de filmes de culto como O Silêncio dos Inocentes ou O Piano, ou de quadros de Gustav Klimt são truncadas, sobrepostas e repensadas, transformando-se numa composição original. Assim recontextualizados, os elementos, agindo como um conjunto de planos inter-dialogantes, transformam-se numa unidade distinta, originando uma narrativa específica, em que a sua fonte e/ou o seu centro de tensão são revelados pela lupa.

Embora realizáveis através da manipulação digital de imagens disponíveis online ou num banco de imagens, sem recorrer à fotografia tradicional, os autores optaram pela manipulação física das imagens em livros, captando os recortes e sobreposições obtidos no negativo de um rolo fotográfico. Esta opção reforça o carácter subjectivo, intrinsecamente pessoal e íntimo, que guiou a escolha das imagens. 

Em Slobodj, o espectador surpreende-se a examinar cada fotografia, procurando o elo de ligação entre os seus elementos, adivinhando significados que, no final, revelam tanto sobre os autores como sobre si próprio.

 

Ver fotografias de Ivo Dias de Sousa e João Paulo Aça