Discurso direto
“Tempo”
por Maria Teresa Horta

Num atropelo
foram passando os anos

Simulando vagares de eternidade
a burilar os sonhos
que sonhamos e a acrescentar
saudades à saudade

Num sobressalto
fomos tomando o gosto

Às infiéis constelações
das nossas rimas
no rasto de anjos e paixões
feitas de fulgores e neblinas

Num alvoroço
foi-se ganhando o tempo

Tecendo o poeta verso a verso
o corpo da poesia acalentada
no excesso e no gosto do colher
sedento a seduzir cada palavra

Num tumulto
fomos iludindo o nada

Na partilha astuciosa do prazer
numa grande vontade adivinhada
escrever com a língua portuguesa
dizendo do país Poema e asa

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