Novos Talentos FNAC Fotografia 2016
Tylko
Pedro Jafuno

No dia 21 de Outubro de 2015 lancei-me em viagem para o Leste da Europa. Durante um mês deambulei, sem roteiro nem expectativas, por ruas de cidades que nunca antes tinha visitado e das quais pouco tinha até ouvido falar.

Varsóvia, Cracóvia, Bratislava, Budapeste, Belgrado, Sófia.

Movido por um desejo de mudança, pessoal e profissional, comecei então uma viagem fotográfica que em tudo contrastava com o meu habitual processo de trabalho. Em todos os meus anteriores projectos fotográficos registei lugares com os quais desenvolvi uma grande relação de proximidade emocional. Lugares onde vivi vários anos, onde estudei, nos quais desenvolvi relações pessoais. A minha fotografia, nestes casos, era um partilhar da minha visão, uma perspectiva vivida, nativa.

Ao partir para o Leste europeu, parti para uma realidade distante, não só fisicamente como culturalmente. Ao contrário do que acontece com a Europa central, com a qual Portugual tem uma longa história de proximidade e de empréstimos culturais, o Leste raras vezes figura no nosso imaginário cultural partilhado. É assim t erra incognita e foi assim que eu a aproximei fotograficamente: sem quaisquer expectativas, sem um olhar treinado. Lá, não andava à procura de nada, simplesmente fotografava. Desenvolvi assim uma abordagem mais imediata à fotografia. Atravé s desta já não mostrava, mas sim descobria.

Para mim, como para a maioria dos portugueses da minha geração, os acontecimentos da II Guerra Mundial e da União Soviética são algo que faz parte de um qualquer currículo escolar: algo de que temos conhecimento, que vemos no Canal História, mas com os quais não tivemos real contacto. Algo distante. Para as gentes do Leste europeu esta não é uma história morta, mas sim algo que ainda está presente, que ainda fere. E esta relação pessoal com a história espelha-se nestas cidade, nas suas gentes, nos seus modos de viver, e como tal, inevitavelmente, espelha-se também nas minhas próprias imagens.

O peso histórico destes conflitos está presente nas ruas de Varsóvia, nos bairros judeus de Budapeste, nos monumentos vandalizados de Sófia. É algo real, palpável, visual. E vive ainda, sobretudo, dentro dos habitantes destas cidades. Toda a gente tem histórias familiares ligadas a estes acontecimentos, embora exista um silêncio perturbador, que parece querer esconder esta realidade.

Pedro Jafuno

Pedro Jafuno (Funchal, 1986)

Pedro Jafuno estudou no Instituto Português de Fotografia do Porto e licenciou-se em Som e Imagem Pela ESAD.CR.

Atualmente vive e trabalha como freelancer em Lisboa, colaborando com diversos projetos fotográficos portugueses, entre eles “We Love Film”.

O seu trabalho de autor é caracterizado pelo registo de lugares com os quais desenvolve uma grande relação de proximidade emocional. Em projetos como “Pedregulho” (2014) assiste-se a um partilhar da sua visão, uma perspetiva vivida e nativa de uma ilha da Madeira em constante mutação.

Em 2011 ganhou dois prémios de fotografia nacionais: a “Incubadora Criativa”, concurso organizado pelo Museu Casa Das Mudas; e o “Safari Fotográfico”, organizado pelo Instituto de Multimédia do Porto.

Em 2014 apresentou a sua primeira exposição individual, “Pedregulho”, na Galeria Fabrica Features, Lisboa.

Desde 2010 que tem vindo a participar em diversas exposições coletivas entre a Ilha da Madeira e Portugal Continental.

 

ARGUMENTÁRIO DO JÚRI
Das imagens da viagem

É comum os fotógrafos precisarem de sair dos seus lugares de conforto para (re)encontrarem estímulo criativo. Os caminhos muitas vezes percorridos, os rostos familiares e os territórios habituais podem tornar-se simples exercícios circulares, gavetas estanques de onde nada de novo ou desafiante sai. Para que aquele estímulo renovado aconteça, há os que não precisam de se deslocar até geografias muito distantes, e outros há que precisam de se embrenhar em culturas totalmente novas, de enfrentar o desconhecido em sítios distantes e de se confrontarem com realidades pouco acessíveis ou cujas lógicas (cultura, linguagem, história) não dominam de imediato.

Até à concretização de Tylko, portefólio vencedor do prémio Novo Talento FNAC Fotografia 2016, o trabalho de Pedro Jafuno (Funchal, 1986) esteve sobretudo relacionado com lugares (e pessoas) com os quais tinha estabelecido laços emocionais e/ou relações pessoais. O desejo de viagem (e de mudança) rumo a terra incognita levaram-no, recentemente, até várias cidades do Leste Europeu (Varsóvia, Cracóvia, Bratislava, Budapeste, Belgrado, Sófia) e colocaram-no no grupo daqueles que encontram no desconforto do desconhecido (no lento apalpar do terreno) um motor criativo, o aguilhão que permite avançar, arriscar e propor novas pistas de reflexão.

Sem o “olhar treinado” (ou viciado) do quotidiano e livre da expetativa que este lhe impunha, deu por si, durante essa viagem, a desenvolver um registo fotográfico mais imediatista e sensorial, com o qual tentou entrar nas profundezas da memória histórica dessa região que vem dos conturbados meados do século XX (do rescaldo da II Guerra Mundial ao domínio do bloco soviético). Encontrou muitos sinais desse legado mas as vozes que o podiam recordar ficaram silenciosas ou só timidamente se expressaram. O que fez Jafuno sentir-se ainda mais “o outro”, “o estranho” numa terra que, para si, se revelou em quase tudo incognita.

A intenção de reportar a força (e a presença) da história esbarrou numa aparente quietude, onde quem foi chamado a “dizer coisas”, a revelar minúsculos segredos foram as fachadas dos edifícios, a vida nas ruas, os pequenos recantos, os acidentes urbanos, os jardins.

Perante a impossibilidade de ver de imediato o que estava a registar no decorrer da sua viagem (e exatamente como), Pedro Jafuno, que fotografou em suporte analógico, começou a tomar notas em cadernos de viagem, tentando não apenas encontrar companhia para as suas imagens fotográficas em latência, como criar novas imagens através das palavras. Ao mesmo tempo que este exercício de registo das ideias e dos pensamentos soltos ia acontecendo, apareceu um outro, o da recolha de memorabilia de viagem, onde se incluiu todo o tipo de bilhética e rastos gráficos que foram restando, como prova da deslocação de uns sítios para outros.   

Encravado entre uma intenção, aquando da partida, ligada à compreensão e aprofundamento da presença do legado histórico nas sociedades contemporâneas do Leste Europeu e um registo diarístico e de apropriação que faz pot-pourri da imagética de viagem (agora mais ligada aos gadgets do que aos mapas em papel e aos guias em livros), Tylko ensaia uma aproximação ao que fica gravado para além da película e da própria fotografia. Mas serve-se de ambas para construir novas imagens. (Não viajamos todos para colecionar imagens?)

O exercício de reconstrução experiencial a que Pedro Jafuno se propôs é um provocador mecanismo de junção de universos gráficos por regra pouco dados a miscigenações e convivências pacíficas. O resultado desta “digitalização” gráfica, que transforma os caminhos percorridos e as memórias numa superfície plana una, é ao mesmo tempo paradoxal e sedutor, na medida em que tanto remete para o romantismo das anotações trazidas do clássico grand tour (entendido como ritual de iniciação à arte e cultura europeias) como para as imagens vernaculares ou de utilidade meramente funcional. Existe ainda um desconforto – e isso é que torna este trabalho tão revelador da enorme intensidade com que hoje nos relacionamos com a imagem, como a ansiamos e nos deixamos inebriar por ela – provocado pela justaposição da fotografia dita “clássica”, associada a um registo de intenção reflexiva plural, e um mundo gráfico de experiência casuística, pessoal e singular.

Ao olharmos para o “caderno” que dá forma a Tylko, depois de sabermos que Jafuno desejou a visualidade das imagens que gravou em película ao ponto de ter de construir outras (mais imediatas, através da escrita e da coleta memorialística) para se saciar, compreendemos melhor esta junção, que mais se assemelha a um casamento de conveniência. Esta ligação de universos gráficos distintos assume particular relevância enquanto exercício de mundividência capaz de levantar questões acerca da nossa relação com as imagens e sobre a maneira como hoje nos expressamos plasticamente através delas, neste caso, em particular, depois da “contaminação” provocada pela deslocação e pela viagem.

Com Tylko (do polaco, que significa “único”, “apenas”, “só”), Pedro Jafuno foi capaz de sair do batido relato de viagem e do desejo de conto romantizado, construindo um exemplar objeto plástico revelador da maneira contemporânea como nos relacionamos com o espaço desconhecido e com a geografia, não apenas guiada pelo GPS, mas também (e ainda) orientada pela intuição e pelos sentidos. Aquilo que terá começado como uma tentativa de interpretação e aproximação dos sinais e do pulsar da História, acabou num peculiar mecanismo de inscrição e partilha de uma experiência visual (não apenas fotográfica), que deve ter tido os seus becos sem saída, as suas errâncias e as suas deambulações serendipistas.

 Sérgio B. Gomes

Júri do Prémio Novo Talento FNAC Fotografia 2016